Mapeamento do campo social de Manaus
O campo social de Manaus não está vazio de dados, mas fragmentado entre bases censitárias, diagnósticos setoriais, planos territoriais, pesquisas acadêmicas e levantamentos de organizações sociais. Por isso, nosso mapeamento não começa “do zero”, mas articula o que já existe com busca ativa territorial. Isso significa combinar bases públicas estruturantes, diagnósticos locais recentes, processos participativos do poder público e pesquisa qualitativa em rede para identificar lideranças femininas que já operam como nós de confiança, cuidado, informação e mobilização em bairros vulneráveis.
Já existe um conjunto robusto de bases públicas que pode informar imediatamente o mapeamento. O Censo 2022 e o portal Cidades do IBGE oferecem população, densidade e recortes municipais; a tipologia de Favelas e Comunidades Urbanas do IBGE dá o enquadramento territorial da informalidade; o Censo indígena introduz uma camada indispensável para Manaus; o Atlas do Desenvolvimento Humano e o Atlas da Vulnerabilidade Social permitem olhar para renda, educação, longevidade e vulnerabilidade; e o ecossistema do Cadastro Único, via CECAD e VIS DATA, permite conhecer características de domicílio, renda, escolaridade, trabalho, deficiência e composição familiar da população de baixa renda. Não é pouca informação: o desafio não é ausência de dado, mas integração territorial e leitura comunitária. [1]
Também há um bloco importante de diagnósticos e processos participativos recentes produzidos no próprio território. A revisão do Plano Municipal de Saneamento Básico de Manaus informa que seu diagnóstico foi construído com solicitação de dados a secretarias municipais e pesquisa em bases secundárias, inclusive artigos e dissertações. O relatório do PPA Participativo 2026-2029 registrou 2.583 participações, 10.332 propostas votadas e 882 sugestões. O Plano de Ação Climática de Manaus incorporou oficina com atores públicos, oficina com sociedade civil e formulário de consulta pública, além de mapas de risco climático. O Plancon municipal, por sua vez, sistematiza hipóteses de desastre e locais suscetíveis. Tudo isso oferece não apenas conteúdo, mas método: consulta, escuta, triangulação e espacialização. [2]
Há ainda um terceiro bloco, mais fino e mais próximo da realidade dos bairros, vindo de universidades e organizações sociais. O diagnóstico socioambiental da comunidade do Crespo, feito com pesquisa participativa e questionários, identificou a ausência de saneamento básico como principal problema local, associada a inundações e alagamentos. Estudos da UFAM sobre a Zona Oeste e sobre áreas de risco em Manaus reforçam a centralidade da fragilidade socioambiental. Pesquisas sobre o igarapé do Mindu retomam a relação entre poluição dos corpos d’água, saúde e urbanização. No campo social e de gênero, há o Diagnóstico Socioterritorial do Estado do Amazonas, o diagnóstico de gênero da Fundação Amazônia Sustentável e o relatório do Instituto Bem Cuidar/AISOS sobre crianças e adolescentes em vulnerabilidade em Manaus, todos úteis para enxergar as lacunas de proteção social e os lugares onde redes comunitárias são mais decisivas. [3]
A conclusão operacional é que o novo mapeamento deve ser menos um levantamento “genérico de necessidades” e mais um sistema de leitura em camadas. A primeira camada é estatística e territorial. A segunda é setorial e participativa. A terceira é relacional: quem são as mulheres que, em cada território, já traduzem problema em resposta concreta, já conectam famílias a oportunidades e já operam como antenas permanentes das urgências comunitárias. Essa terceira camada é a que normalmente não aparece sozinha nos grandes bancos de dados, e por isso precisa de busca ativa. [4]
2) LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS FEMNININAS: UM PONTO DE “ACUPUNTURA SOCIAL”
A escolha por apoiar lideranças comunitárias femininas faz sentido porque o próprio território já revela uma infraestrutura de ação social fortemente feminina. No Prosamin+, por exemplo, o governo do Amazonas informou que 71% das lideranças comunitárias nas instâncias de participação do programa eram mulheres. A literatura sobre Manaus também mostra mulheres no centro das lutas por moradia e da organização comunitária, como no caso do Movimento de Mulheres por Moradia Orquídeas. E estudos sobre feminismos na Amazônia destacam justamente a liderança de mulheres em comunidades ribeirinhas como parte da construção de subjetividades e formas de ação coletiva historicamente invisibilizadas. [5]
Isso importa porque os problemas mais recorrentes identificados para Manaus são, em grande medida, problemas mediados pelo trabalho feminino cotidiano: geração de renda, prevenção à gravidez na adolescência, cuidado com crianças, saúde, permanência escolar, violência e suporte emocional. A página de caso da Manauara no IDIS informa que a organização mapeou como desafios regionais, entre outros, geração de renda, prevenção à gravidez na adolescência, combate à prostituição, atividades para manter crianças fora das ruas e cuidados com a saúde; o mesmo material registra que as causas prioritárias mapeadas têm olhar para redes femininas de apoio mútuo em periferias. O Fundo Icamiabas, por sua vez, foi desenhado exatamente para apoiar líderes comunitárias que trabalham em prol de outras mulheres. [6]
É por isso que a metáfora de “ponto de acupuntura social” é mais do que retórica. Ela descreve uma estratégia de foco em nós comunitários de alta capilaridade. A literatura de filantropia comunitária apoiada pela Mott Foundation insiste em três elementos para que instituições territoriais funcionem: enraizamento local, confiança e mobilização flexível de recursos; o programa Transformando Territórios define institutos e fundações comunitárias como arranjos capazes de financiar múltiplas causas, produzir conhecimento, fortalecer organizações e conectar doadores, sociedade civil e poder público. A inferência que decorre disso, para Manaus, é que apoiar mulheres que já organizam reciprocidade, cuidado e mobilização comunitária tende a reduzir custo de coordenação, encurtar a distância entre recurso e impacto e multiplicar benefícios em cadeia. [7]
Em linguagem prática: quando uma liderança feminina já é procurada pela vizinhança para orientar, cuidar, encaminhar, ensinar, organizar e mobilizar, ela deixa de ser apenas beneficiária e passa a ser infraestrutura social. O apoio a essa mulher não entrega somente um benefício individual; ele fortalece uma microinstituição de confiança já existente. É nesse sentido que a estratégia pode produzir o maior impacto socioambiental com o menor esforço adicional possível: não porque os problemas sejam pequenos, mas porque o apoio entra em um ponto onde a circulação comunitária já existe. Essa é uma inferência estratégica fundada nas evidências acima e que o mapeamento deve validar em campo. [8]
3) O QUE O TERRITÓRIO JÁ MOSTRA
Manaus tinha 2.063.689 habitantes no Censo 2022 e é uma cidade quase integralmente urbana; a revisão do Plano Municipal de Saneamento Básico informa que 99,03% da população do município vive em área urbana. Ao mesmo tempo, o Censo 2022 mostrou que Manaus era o município brasileiro com maior número de pessoas indígenas, com 71,7 mil habitantes indígenas, o que reforça que qualquer leitura do campo social local precisa incluir periferias urbanas, comunidades tradicionais urbanizadas e formas amazônicas específicas de ocupação e pertencimento. [9]
A precariedade urbana também aparece de forma muito concentrada. O IBGE informou que seis das vinte Favelas e Comunidades Urbanas mais populosas do país estão em Manaus. Em paralelo, o MapBiomas mostra que Manaus lidera o ranking nacional de área urbanizada em favelas tanto em 1985 quanto em 2024, com crescimento de 2,6 vezes no período; em 2022, o próprio MapBiomas já apontava Manaus como um dos maiores destaques nacionais no avanço da urbanização informal. Em dezembro de 2025, o IBGE acrescentou outra dimensão do problema: Manaus aparecia entre os maiores valores absolutos de moradores de favelas em trechos de vias sem iluminação pública, com 85 mil pessoas nessa condição. [10]
Na infraestrutura básica, o déficit de esgotamento sanitário continua sendo um sinal de alerta. Em 2024, o Instituto Trata Brasil resumiu a situação de Manaus dizendo que mais de 1,5 milhão de moradores não tinham acesso à coleta de esgoto e que apenas 21,8% do esgoto gerado na cidade era tratado; o texto descreve os serviços de coleta e tratamento como precários e distantes da universalização. Somado a isso, o Plano de Ação Climática de Manaus passou a mapear, com projeções até 2050, riscos associados a inundações fluviais, deslizamentos, arboviroses, ondas de calor, secas e incêndios, enquanto o Plancon municipal lista chuvas intensas, cheia, estiagem e incêndio como hipóteses de desastre, com indicação de áreas suscetíveis. [11]
Em outras palavras, a pobreza urbana em Manaus não é apenas um problema de renda. Ela se expressa como combinação de ocupação informal, fragilidade ambiental, baixa infraestrutura, riscos recorrentes, déficit de serviços e sobrecarga de cuidado no interior das famílias e das redes de vizinhança. É esse ambiente que torna especialmente valiosa a identificação de lideranças que já funcionam como mediadoras locais entre necessidade, confiança e ação concreta. [12]
4) PROGRAMA ICAMIABAS, MANAUARA E A ADAPTAÇÃO AMAZÔNICA DO MODELO DE FUNDAÇÃO COMUNITÁRIA
O modelo conceitual de referência é relativamente nítido. A Charles Stewart Mott Foundation descreve a filantropia comunitária como formada por organizações filantrópicas territoriais, duráveis e sustentáveis, capazes de construir confiança e reunir pessoas de diferentes partes da comunidade em torno de soluções compartilhadas. O programa Transformando Territórios do IDIS, dentro do qual a Manauara foi criada, por sua vez, define institutos e fundações comunitárias como organizações voltadas a um território delimitado, com visão de longo prazo, atuação como grantmakers e capacidade de fortalecer o terceiro setor local, produzir conhecimento e fomentar cultura de doação. [13]
A Manauara assume publicamente esse lugar. Em seu site, a organização descreve cinco funções: captação de recursos, gestão financeira, pesquisa e descoberta, distribuição de recursos e acompanhamento de projetos. O texto afirma que “mapear constantemente as demandas da população local e as ações já desenvolvidas pelos movimentos sociais, ONGs e ativistas locais é o coração do trabalho” e que a associação mantém pesquisa constante sobre ONGs e ativistas com iniciativas de impacto no território. Em outra página institucional, a Manauara afirma ter sido criada com apoio do IDIS e da Charles Stewart Mott Foundation no contexto do programa Transformando Territórios. [14]
O Programa Icamiabas traduz esse arcabouço para uma tecnologia social muito mais concreta e aderente ao cotidiano da periferia manauara. A descrição pública do programa diz que cada liderança apoiada recebe, por dois anos, apoio financeiro simplificado a fundo perdido, coaching pessoal, aconselhamento voltado a empreendedorismo e construção conjunta de um projeto com objetivos e mensuração simples; a página detalha ainda que, no primeiro ano, a Icamiaba pode receber de R$ 500 a R$ 1.000 por mês via cartão de débito recarregado para viabilizar atividades de geração de renda. Já o caso publicado pelo IDIS informa que o Fundo Icamiabas surgiu depois da percepção de que era preciso um formato mais simples do que edital, com busca ativa baseada em entrevistas cruzadas, isto é, snowball mapping. [15]
É aqui que aparece a adaptação amazônica do modelo de fundação comunitária. Em vez de reproduzir uma fundação comunitária clássica centrada desde o início em endowment robusto, grantmaking formal e institucionalidade pesada, a Manauara começa por aquilo que o território exige: escuta ativa, identificação de lideranças invisibilizadas, rede local de confiança, pequenos repasses flexíveis, apoio humano contínuo e foco em causas que atravessam o dia a dia das mulheres nas periferias. Em vez de um desenho importado “pronto”, o que se vê é uma tradução do conceito de filantropia comunitária para uma cidade amazônica em que vulnerabilidade social, informalidade urbana e urgência socioambiental se sobrepõem. Essa síntese é uma interpretação ancorada nas descrições públicas do programa, do modelo de fundação comunitária e do contexto territorial de Manaus. [16]
5) BASE DOCUMENTAL PRIORITÁRIA
A lista abaixo reúne as fontes mais úteis para informar o mapeamento. As citações funcionam como links diretos.
Bases públicas e administrativas
- IBGE [17] e Censo 2022 de Manaus: ponto de partida para população, densidade, perfil municipal e séries básicas do território. [18]
- Censo 2022 sobre Favelas e Comunidades Urbanas: essencial para medir concentração da informalidade, dimensão das comunidades e desigualdades urbanísticas dentro e fora desses territórios. [19]
- Censo 2022 sobre população indígena: indispensável para localizar a especificidade amazônica e a centralidade indígena no campo social urbano de Manaus. [20]
- Ipea[21], Atlas Brasil e Atlas da Vulnerabilidade Social: úteis para compor leitura de renda, educação, longevidade e vulnerabilidade social em escala municipal e metropolitana. [22]
- Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome[23], CECAD e VIS DATA: conjunto mais útil para explorar perfis de famílias de baixa renda, composição domiciliar, renda, escolaridade, trabalho e deficiência. [24]
- Instituto Trata Brasil[25] e Painel Saneamento Brasil: fundamentais para saneamento, tratamento de esgoto e efeitos sobre saúde. Para Manaus, o retrato recente continua crítico. [26]
Diagnósticos participativos e territoriais de Manaus
- Relatório do PPA Participativo 2026-2029 de Manaus: mostra prioridades captadas em consulta pública recente e serve como fonte de validação das urgências percebidas pela população. [27]
- Revisão do Plano Municipal de Saneamento Básico de Manaus: muito valiosa porque cruza dados oficiais, secretarias municipais e bibliografia acadêmica, além de incluir diagnóstico socioambiental e saneamento rural/periurbano. [28]
- Plano de Ação Climática de Manaus: importante para localizar riscos de inundação, deslizamento, calor, seca, incêndio e arboviroses, além de registrar consulta com atores públicos e sociedade civil. [29]
- Plancon 2024 e iniciativas de redução de risco: essenciais para identificar áreas suscetíveis a desastre, famílias em áreas de risco e conexões entre vulnerabilidade urbana e emergência climática. [30]
- Observatório da Região Metropolitana de Manaus [31], criado por iniciativa da Fundação Vitória Amazônica [32]: útil para publicações, mapoteca e experiências participativas sobre mudanças climáticas e governança metropolitana. [33]
- MapBiomas [34]: base quase obrigatória para enxergar a expansão territorial das favelas e a ocupação de áreas de risco na capital e na região metropolitana. [35]
Pesquisas acadêmicas e de organizações sociais
- Universidade Federal do Amazonas[36] e estudos correlatos sobre fragilidade socioambiental na Zona Oeste, risco em bacias urbanizadas e poluição dos igarapés: ajudam a territorializar a vulnerabilidade em microbacias, encostas e áreas de expansão precária. [37]
- Diagnóstico socioambiental da comunidade do Crespo: exemplar metodologicamente porque usa pesquisa participativa e mostra como saneamento, inundação e moradia se articulam no nível comunitário. [38]
- Fundação Amazônia Sustentável [39], diagnóstico de gênero no Amazonas: muito útil para mapear políticas públicas, movimentos de mulheres e lacunas institucionais que afetam lideranças femininas. [40]
- Instituto Bem Cuidar [41] e AISOS, pesquisa sobre crianças e adolescentes em Manaus: importante para entender falhas de proteção, convivência familiar e comunitária e desarticulação da rede de garantia de direitos. [42]
- Pesquisas e relatos sobre mulheres na organização comunitária em Manaus e no Amazonas, incluindo o Movimento Orquídeas, feminismos na Amazônia e a predominância feminina nas lideranças do Prosamin+: material central para fundamentar a escolha por lideranças femininas como alavancas territoriais. [43]
6) CONCLUSÃO
A decisão de apoiar lideranças comunitárias femininas em Manaus é defensável porque combina coerência territorial, coerência metodológica e coerência institucional. Territorial, porque os problemas que mais se acumulam na cidade — saneamento precário, expansão informal, risco climático, desproteção social e sobrecarga de cuidado — se manifestam em circuitos cotidianos nos quais mulheres já atuam como organizadoras locais. Metodológica, porque a literatura e os diagnósticos disponíveis sugerem que o impacto cresce quando o recurso entra por pontos de confiança já existentes, e não apenas por chamadas genéricas. Institucional, porque esse desenho está em continuidade com o que a Manauara já descreve como sua vocação: mapear demandas, descobrir atores, distribuir recursos e acompanhar impacto. [44]
Em termos de desenho de pesquisa, isso leva a uma recomendação objetiva: usar os levantamentos existentes para encontrar os territórios mais pressionados e, dentro deles, aplicar busca ativa em rede para identificar mulheres que já apoiam outras mulheres, organizam geração de renda, cuidado, encaminhamento e mobilização comunitária. Esse é o sentido mais rigoroso do que estamos chamando de “acupuntura social”: focalizar apoio flexível, contínuo e de baixa burocracia em lideranças que já concentram confiança local e que, por isso, podem transformar pouco recurso adicional em muito efeito comunitário. [45]


